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Encontros Improváveis

Histórias sobre tudo e sobre nada

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22
Fev18

Os livros #2

Han Kang está no palco do auditório e quase nem se dá por ela. Quando começa a falar, com uma voz muito baixa, transmite uma sensação de calma como muito pouca gente consegue. Se já me sentia fascinada por ela, a sua leitura em voz alta, em coreano, de uma parte de “Actos Humanos” deixou-me presa ao que tinha para dizer.

 

A minha história com Hang Kang começou, em 2016, por acaso: estava a ver os livros no supermercado (sim, no supermercado) e vi um livro de tons rosa forte. Era de uma autora sul-coreana de quem nunca tinha ouvido falar, mas mais do que a chancela Man International Booker Prize, foi a descrição que me convenceu a comprar o livro:

 

"Ela era absolutamente normal. Não era bonita, mas também não era feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana."

 

O livro teve um impacto grande em mim, ao ponto de já o ter sugerido para o clube de leitura (mais sobre o clube num próximo post) e de o ter recomendado a várias pessoas.

 

O efeito que o livro teve em mim prendeu-se com duas coisas: o tema, escrito de uma forma tão diferente da que estava habituada, e a abordagem — nunca sabemos qual é o ponto de vista da protagonista, porque ouvimos a sua história contada através do marido, do cunhado e da irmã. Só percebemos o que ela pensa através de trechos soltos no texto, parte sonho, parte desabafo.

 

No entanto, se pensar mais um pouco, não foram apenas estes dois pontos que tiveram um impacto tão grande em mim. Foi a violência. A violência que é, também, um dos pontos centrais do segundo livro que li de Han Kang , Actos Humanos:

 

“A história de Dong-ho, um rapaz que não resistiu a seguir o melhor amigo até à manifestação, mas, quando ouviu os tiros, largou-lhe a mão, procurando-o agora entre os cadáveres de uma morgue improvisada. E é também a história dos que cruzaram o caminho de Dong-ho antes e depois dessa noite infame — os que caíram por terra desarmados e os que foram levados para a prisão e torturados; os que sobreviveram ao terror mas nunca mais conseguiram falar do assunto e os que, tantos anos passados, sabem, tal como Han Kang, que a história pode repetir-se a qualquer momento e que é preciso lembrar os actos brutais de que os humanos são capazes.”

 

Hang Kang, uma pessoa tão calma, que inspira tanta paz, que mal se consegue ouvir naquele auditório da biblioteca (ela participou na Feira do Livro do Porto, em Setembro de 2017) escreve histórias de desespero, de violência, assustadoras, por serem tão reais: sobre a pressão dos outros, sobre a banalidade, sobre os sonhos, sobre a repressão, sobre o poder e sobre a brutalidade de que os humanos são capazes, especialmente nos pequenos actos.

 

Mais do que falar sobre o enredo, é isso que importa dizer: Han Kang é mestre na arte de nos fazer sentir e, só por isso, já vale a pena recomendá-la.

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